
Andava há algum tempo com a ideia de escrever sobre “Community”, a estupenda série de televisão criada e comandada com mão de ferro por Dan Harmon*. O momento, infelizmente, é bastante apropriado: a exibição na NBC foi interrompida, um mau presságio que faz temer o cancelamento da série. Depois de “Arrested Development”, a melhor sitcom do universo, que sofreu também às mãos da sua estação de televisão (e de falta de espectadores), “Community” vinha revelando-se uma digna sucessora — não tanto porque copiasse o registo da série de Mitch Hurwitz, esse papel coube a “Modern Family”, a versão deslavada que caiu nas graças do público e recebeu muitos prémios, mais por explorar a dimensão pós-narrativa ou meta-narrativa ainda mais fundo, aliando uma aguda inteligência (quase autista, um pouco como Abed, a personagem mais representativa desta vertente) a um humor físico e, por vezes, espalhafatoso (sempre no bom sentido). No entanto, essa maior qualidade podia ser também o seu maior defeito (demonstrando que se pode ser demasiadamente genial): na terceira temporada, a que foi agora interrompida, começava-se a notar menos o humor e quase só a inteligência — por exemplo, o episódio “Remedial Chaos Theory”, que seguia por seis (na verdade, sete) possibilidades da realidade, provocava mais o pensamento do que o riso. É verdade que esse arrojo sempre esteve lá — basta recordar os episódios de paintball ou aquele em animação de figuras de barro ou aquele em que se constrói uma cidade de cobertores ou aquele em que uma linha narrativa acontece muito literalmente em segundo plano —, mas era alicerçado na férrea estrutura dos argumentos e em piadas muitíssimos boas. É isso, faltavam piadas na terceira temporada e vinha-se perdendo ainda o centro (a “casa”) da acção que era a faculdade (a sala de estudo, as salas de aulas, os outros colegas). Escrito isto, “Community” continuava a ser imperdível (provavelmente, a melhor série em exibição) e as sólidas temporadas que estavam para trás prometiam uma revelação ou apontamento brilhante a qualquer momento. É uma pena se regressar em março só para receber a machadada final. Mesmo assim, que regresse.
*Deixo Dan Harmon, que tem muito que se lhe diga e com quem já estou em dívida, para um texto só sobre si.
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