
Em princípios dos anos 90, Al Pacino voltou a fazer das suas com sotaques sul-americanos; a capacidade de aguentar filmes inteiros com sotaques terríveis e desajustados será a maior prova de que é um grande actor. Como em “Scarface”, em que interpretava um excêntrico, bimbo e cocaínado cubano, Pacino é filmado por Brian De Palma. Mas esse filme era quase todo do argumentista Oliver Stone, cuja escrita fortíssima (muito pouco subtil) se impunha aos habituais devaneios do realizador (De Palma não funciona bem com argumentos complicados e/ou muito coerentes), e, no meio daquilo tudo, ninguém se terá lembrado de dizer a Pacino para parar com a palhaçada (divertida, mas, passado algum tempo, cansativa). Em “Carlito’s Way”, Pacino, desta vez porto-riquenho, está mais velho e cansado, e, apesar do berro costumeiro, mais comedido (compõe umas das suas interpretações mais bonitas). Por outro lado, De Palma não tem de se haver com Stone, antes com um argumento sólido — sobre a redenção de um criminoso ou a sua impossibilidade — e suficientemente simples para que esteja à vontade: a perseguição no metro e na Grand Central Station é das melhores sequência de acção que fez (ou seja, uma das melhores sequências de acção de sempre). Por essas e por outras — a lindíssima Penelope Ann Miller (o que é feito dela?); o pusilânime e ardiloso (e careca) Sean Penn; o sempre óptimo Luis Guzmán; o up-and-coming John Leguizamo (que também anda desaparecido); o clube, os mafiosos e os polícias, a Nova Iorque dos anos 70 —, gosto muito mais de “Carlito’s Way” do que de “Scarface”, aliás, é capaz de ser um dos meus De Palma preferidos (e um dos meus filmes preferidos dos anos 90).