February 1, 2011
a opinião e a crítica

Tive sempre a ideia, mesmo antes de escrever estoutro texto, de me alongar sobre a opinião e a crítica. Para quê perder tempo com essa discussão em vez de falar de filmes e músicas e ideias?, perguntarão alguns. Eu mesmo me pergunto às vezes. A melhor resposta que posso dar: é nesta discussão que se fundam todas as outras. Se uma pessoa não for capaz de aceitar as opiniões dos outros, por muito que discorde delas (o que não a impede, como é óbvio, de as refutar), não há discussão possível, existe só uma marcação de território, perfeitamente estéril. Na melhor das hipóteses. Há piores.

Vou por partes, sei que me vou perder e desviar dos assuntos, mas tentarei chegar a algum lado. Se tudo correr bem, vou achar coisas em que não tinha pensado, vou desfazer algumas das minhas ideias feitas. Como me movo por areias movediças (passe a aliteração), o mais provável é procurar pôr o pé em terra firme a todo o custo, seguindo por lugares comuns. Evitarei, o quanto possível, cair nessa tentação. Este texto é tanto para mim como para os outros.

O gosto

O gosto forma-se ou vai-se sempre formando ao longo da vida por educação, temperamento, capricho, birra, deleite, entre tantas outras coisas. A meu ver, e reconheço algumas insuficiências na minha análise, a criação do gosto tem uma forte componente irracional. Nasce antes do pensamento, da análise e da argumentação.

Mal comparado (ou demasiadamente bem), começamos por gostar de um clube de futebol porque começamos a gostar de um clube de futebol. Não há grandes razões para isso, mesmo que acabemos por pensar depois que é o melhor clube do mundo. Não somos de um clube por este ser o melhor do mundo, o clube é o melhor do mundo por sermos dele. Por mais voltas que dê, parece-me que muitos gostos se formam assim (e, de alguma forma, até as ideologias políticas, mas essa é outra história).

Era neste sentido que me referia, no outro texto, ao meu desprezo por Iñarritu e outros realizadores, conhecendo tão pouco da obra deles. Para demonstrar a mim mesmo e aos outros que, por muito que queiramos pensar que não, funcionamos muitas vezes desta maneira.

A opinião

Do que escrevi antes, retira-se, então, que a opinião é tantas vezes uma racionalização do gosto, um “after-thought”. É o que me parece.  

Apesar de tudo, uma pessoa muda de gostos e opiniões. Como? Por influência exterior. Pelo gosto e opinião dos outros. Aqui, entra-se no domínio do racional, reflecte-se, que é como quem diz volta-se a pensar, em vez de ir pelo primeiro instinto, reavaliam-se preconceitos. Claro que há coisas que, por muito que nos demonstrem que não prestam, amamos e o contrário também. De resto, não defendo que o racional é mais certeiro ou avisado do que o irracional no gosto e na opinião, equivalem-se, ambos importantíssimos.

A crítica

A crítica não passa da opinião de um indivíduo, mais ou menos bem fundamentada.

O horror à influência

Perante uma opinião contrária à sua, qual é a primeira reacção de qualquer pessoa? Atacar o autor da opinião, de modo a descredibilizá-la. Quando há umas semanas li esta crítica negativa do João Lisboa ao álbum de Mark Kozelek, músico de que gosto muito, pensei “o homem está velho, já não sabe o que diz, está lélé da cuca”. Mais tarde, caí em mim. O João Lisboa até poderia ter residência permanente no Miguel Bombarda, que isso não lhe retiraria legitimidade de escrever o que escreveu, até porque o fundamenta e bem. A sua opinião é tão-só diferente da minha. 

Porque é que levamos tão a mal opiniões contrárias? Entende-se que gostemos que nos validem o gosto e a opinião, é humano. Mas quando um crítico ataca algo de que gostamos muito, não nos está a atacar a nós, está a dar a sua opinião, o que é, de resto, a sua profissão (e mesmo que não fosse). Terá a ver com o lado irracional da opinião? De nada serve inverter as coisas e atacar o crítico em vez das suas ideias. Primeiro, porque é parvo. Segundo, porque a ideia continua lá, tão legítima como dantes. 

No entanto, o que mais se vê são ataques pessoais, atribuições de segundas intenções ou pérolas como “se és assim tão bom, porque é que não fazes tu?”, que são sempre engraçadas, mas não menos falaciosas. 

As falácias

“Contra factos, não há argumentos”, costuma dizer-se e com razão. É necessário é saber distinguir factos de opiniões. 

Uma opinião maioritária não é um facto, é uma opinião. Cotações no IMDb são, apenas, as opiniões de muitos. Da mesma forma que as cotações do Rotten Tomatoes são as opiniões dos críticos. Nada mais. 

Resultados de bilheteira são factos. Que nada dizem acerca da qualidade de um filme. Apenas que muitas pessoas o quiseram ver. São coisas diferentes.

As ideias são independentes de quem as emite. Uma pessoa pode ser doente mental, pedófila, bêbada, canhota, coxa, drogada, careca que em nada retira à ideia que defende. Os ataques pessoais só afectam as pessoas, não as ideias.

As opiniões contrárias não estão ao serviço de uma enorme conspiração (de pseudo-intelectuais ou de burgessos que adoram devorar pipocas ou de lagartos inteligentes ou de máquinas assassinas) que pretende que rendamos a nossa opinião à sua. Como tal, supor segundas intenções, quaisquer que elas sejam, é uma forma de insulto e um ataque pessoal, tão inválido como os demais.

Ninguém precisa de saber fazer alguma coisa para poder dar a sua opinião sobre ela. Por essa (i)lógica, só o realizador de um filme poderia opinar sobre ele, já que é o único que esteve presente em todo o processo (se esteve).

O caos

Deixo para o fim uma última falácia, na qual, por vezes, incorro. 

Não há obras incriticáveis ou inatacáveis. Tudo é passível de opinião e crítica. É claro que existem obras canónicas em todas as artes, que são uma base para a discussão, não o fim da discussão. Quer isto dizer que a qualidade de qualquer obra só por aferida pela opinião de cada um e por isso é subjectiva? Sim, é isso que defendo. Criará isto um caos em que tudo vale o mesmo? Sim. Prefiro esse caos a que o meu gosto seja determinado automaticamente pelo de alguns, por muito inteligentes e cultos que sejam. 

Os limites da crítica/opinião

Se a opinião e, por conseguinte, a crítica são quase sempre legítimas, quando é que não são? 

Será que as opiniões do Armond White - crítico de cinema na New York Press - são ilegítimas por irem sempre contra a opinião dos outros críticos, por serem “do contra”, por seguirem por um “deitar-abaixismo” que demole os filmes supostamente sérios em favor do entretenimento bacoco? Não. Tudo isso entra no domínio da opinião e deverá ser respeitada enquanto tal, mesmo que, depois, seja debatida e discutida.

Só quando Armond White incorre ele mesmo no ataque pessoal, como sempre faz com os filmes do Noah Baumbach (já andava às turras com a mãe dele e parece que o filho as herdou), ou quando atribui segundas intenções, improváveis, aos autores dos filmes. Aí White, ou qualquer critico como ele, cai nas mesmas falácias dos que não suportam as opiniões dos outros.

Remate

Volto a uma questão anterior: porque é que levamos tão a mal as opiniões contrárias? Porque nos obrigam a repensar e reavaliar. Porque temos medo de pensar pela cabeça dos outros, como se desaprendêssemos. O que é a aprendizagem se não a influência de outros? Devíamos louvar a opinião contrária, não tentar exterminá-la.

De qualquer forma, só há discussão quando decidimos aceitar a opinião dos outros. E, salvo as devidas excepções, não há razões para não o fazermos.

Agradecimentos

Obrigado ao João Palhares e ao Samuel Andrade, por me terem feito pensar mais sobre estas questões.

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