março 5, 2012
cinemas-fantasma

Ontem pensei ir ao Quarteto. Já não vou lá há tanto tempo. Adoro subir (ou descer, tanto faz) a Estados Unidos da América, passar por baixo daqueles prédios dos anos 50 (a minha Lisboa é mais Avenidas Novas do que rios e castelos), como se fosse entrar noutra cidade, daquelas que só existem nos sonhos, e dar com aquela rua meio-escondida; nela, no lugar onde sempre esteve, lá, para quem o sabe procurar, o Quarteto: quatro salas quatro filmes, os melhores em cartaz, o último Woody Allen, o documentário independente, a sensação do momento, até a super-produção que ocupa as mentes de todos. Qualquer filme é melhor quando visto daquelas poltronas vermelhas. Estão um tanto envelhecidas, esfarrapadas, encardidas, diz-se que têm piolhos e outros bicharocos; a banda-sonora do filme do lado sobrepõe-se à do nosso; a tela tem uma mancha, ali, não, mais para a esquerda, mais para cima, aí; o café do foyer está fechado, fez-se uma petição e tudo, mas nunca mais vi o senhor de bigode que costumava estar atrás do balcão; os senhores que que rasgam os bilhetes continuam os mesmos, sempre os mesmos; infelizmente, os bilhetes já não parecem bilhetes de comboio como dantes, como os bilhetes de comboio de antes. Não está cá ninguém. Ninguém vem cá por estes dias. Eu mesmo já não venho cá há tanto tempo. Cinema-fantasma. Em ruínas. Cheio de entulho. Enjaulado. Nunca mais cá venho. 

Dos meus cinemas de Lisboa, sobram poucos: o King, o Londres, o São Jorge (assim-assim), o Monumental (assim-assado). Vá lá que não me lembro dos que desapareceram nos anos 80, que estavam a morrer quando eu estava a crescer. Se não, a tristeza seria maior. A tristeza de já não viver numa cidade com um cinema em cada esquina, em cada bairro. A tristeza de viver numa cidade em que quase não há cinemas. Esta tristeza.

*a fotografia foi tirada daqui

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