agosto 21, 2012
filmes: “recordações da casa amarela”, de joão césar monteiro

O Hospital Miguel Bombarda, cenário de “Jaime” e “Recordações da Casa Amarela”, será a “sala de cinema” em que vão passar os filmes de António Reis e João César Monteiro, respectivamente, no próximo domingo, pelas 22h00. A minha crítica às “Recordações…” aqui.

outubro 5, 2011
os meus dez filmes portugueses preferidos

A propósito da estreia de “Sangue do Meu Sangue”, de João Canijo, decidi-me a concretizar a ideia, que tinha há muito, de fazer uma lista dos meus filmes preferidos portugueses. Para que não aparecessem três ou quatro filmes de César Monteiro, só entrou um filme por realizador. Aqui vai ela:

10 - “Inquietude” de Manoel de Oliveira (1998)

Oliveira, só às vezes e a muito custo. Gosto de “Viagem ao Princípio do Mundo”, “Vale Abraão” e dos fáceis “Aniki-Bóbó” e “A Caixa”. Vi “Inquietude” duas vezes no cinema, não gostei de nenhuma, e só repeti a dose por causa de um texto do João Bénard da Costa. Uns anos depois, vi-o na televisão e percebi-o. Percebi-o de uma maneira que duvido que volte a acontecer. Mas, naquele momento, todo o cinema de Oliveira fez sentido.

9 - “Jaime” de António Reis (1974)

Deve ter sido o único domingo em que a Cinemateca esteve aberta; comemorava-se os 25 anos do 25 de Abril e passaram alguns filmes apropriados, incluindo este “Jaime” (não confundir com o filme posterior de António-Pedro Vasconcelos). Fiquei apanhado pela praça circular do Hospital Miguel Bombarda (que haveria de ser cenário de “Recordações da Casa Amarela” de João César Monteiro), pela obra de Jaime Fernandes, doente mental que se dedicou à pintura e é (des)centro do filme, e pela “St. James Infirmary” como tocada e cantada por Louis Armstrong. 

8 - “Sangue do Meu Sangue” de João Canijo (2011)

Mote para esta lista, o que é que posso acrescentar? Uma pessoa sabe quando sai de um grande filme. Já não me acontecia há algum tempo, desde “Go Get Some Rosemary”, dos irmãos Safdie, talvez. A sensação que “Sangue do Meu Sangue” me deixou ainda está fresquinha. Faço tenções de ver a versão longa e de escrever sobre ela aqui.

7 - “Peixe-Lua” de José Álvaro Morais (2000)

Morais já morreu (novo) e nunca teve o reconhecimento que merece. “Peixe-Lua” lança-se sobre as planícies alentejanas (ou serão já em Espanha?), das touradas, dos montes, e sente-se o calor e o cheiro daquelas terras sem necessidade de recorrer papéis raspáveis. Mais histórias de amor trocadas e destrocadas, e um dos diálogos mais bonitos de sempre, quando Marcelo Urgerghe pergunta a Beatriz Batarda por alma de quem é que ela o está a beijar, ao qual ela responde: “Pela tua, estúpido”. 

6 - “O Capacete Dourado” de Jorge Cramez (2007)

Mais um infortunado do cinema português (há uns quantos; Manuel Mozos é outro e tenho pena que não apareça nesta lista), Jorge Cramez acertou na sua única (?) longa-metragem, um filme muito calmo cujo tema é um suicídio real de um par de namorados numa terra pequena e perdida em Portugal. Em “O Capacete Dourado”, ninguém morre, num espectacular triunfo do cinema e do (fogo-de-)artifício sobre a realidade. 

5 - “O Sangue” de Pedro Costa (1989)

Antes das Fontaínhas e do reconhecimento internacional, Pedro Costa fez um dos mais belos filmes, negro, escuro, lisboeta, mortal, fábula que se conta aos olhos espantados de criança, que se assusta e delicia com negrumes vários, antes de lhe ensinarem que deve fugir do que tem medo. Ia a escrever que é um conto infantil para adultos, mas só o é para aqueles que sabem ver. Depois, há a espantosa mestria (na luz, na montagem) de Costa, tanto mais incrível por esta ser a sua primeira longa-metragem. 

4 - “No Dia dos Meus Anos” de João Botelho (1992)

No princípio dos anos 90, a RTP mandou fazer quatro tele-filmes, um sobre cada elemento. Pelo menos dois são muito bonitos: “Das Tripas Coração”, de Joaquim Pinto, sobre o fogo; e este “No Dia dos Meus Anos”, sobre o ar. João Botelho parece ter reservado o seu filme mais singelo para a televisão, a história de um miúdo que vai fazer anos e olha para o céu, onde vão passando aviões, à espera que o pai apareça. Lembro-me, já mal, da irmã que ouvia incessantemente Blondie e do passeio com o avô, de mão dada, pela Estufa Fria. 

3 - “O Fio do Horizonte” de Fernando Lopes (1993)

Baseado num conto borgesiano do italiano António Tabucchi, “O Fio do Horizonte” corre como um filme policial, em que um médico legista (Claude Brasseur, parecidíssimo com Fernando Lopes) investiga a existência do cadáver dele mesmo trinta anos mais novo, e passa pelo Cais-do-Sodré das putas e pelos copos do Ritz Club. Ana Padrão é lindíssima, como só se pode ser uma vez.

2 - “Os Mutantes” de Teresa Villaverde (1998)

Ana Moreira. “Os Mutantes” é Ana Moreira, numa interpretação absolutamente extraordinária, talvez a maior interpretação num filme português. A pujança e a beleza agreste do filme devem muito à actriz, que, à altura, não teria mais de 18 anos. Mas também a Alexandre Pinto, que anda há muito arredado do cinema. E à roda da Feira Popular (a recordar Minnelli e que já não existe). Dá pena que Ana Moreira, à excepção de “Transe”, se tenha deixado cristalizar na imagem que criou aqui. É óbvio que nunca mais teve a mesma força.

1 - “À Flor do Mar” de João César Monteiro (1986)

De Teresa Villaverde realizadora a Teresa Villaverde actriz adolescente a anunciar o “New York Herald Tribune”, uma das muitas citações e homenagens a outros filmes e restantes artes. João César Monteiro, antes de João de Deus existir, deixou-se levar pela beleza até ao limite. Há quem não goste, há quem diga que falta a outra parte: o vernáculo, as diabruras, o cheiro a sexo, a personagem que se fez caricatura de uma pessoa. O certo é que “À Flor do Mar”, a começar pelo título, é o mais belo filme do mundo. Manuela de Freitas é imensa e o Algarve azulíssimo. 

(Alguns dos filmes mencionados nesta lista, bem como outros óptimos filmes portugueses, encontram-se no My One Thousand Movies.)

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