Dinis Machado “O que diz Molero”
Um Kane à lisboeta
O optimista Austin e o cínico Mister DeLuxe, da frieza de um escritório futurista onde ainda se pode fumar (e fuma-se copiosamente), analisam o relatório da vida do rapaz - como é sempre referido a figura central do romance - escrito por um tal de Molero, agente encarregue das investigações à vida de pessoas e de completar os posteriores relatórios. Nunca se descobre para que organização trabalha toda esta gente, a princípio presume-se que o rapaz terá morrido e que este mundo burocrático é o Céu como retratado nalguns filmes mais ácidos dos anos 30 e 40. A dúvida resiste até ao fim, e as certeza que se alcançam ao ler a última página são muito frágeis.
Mas pouco interessam estas questões, Dinis Machado coloca o leitor à procura de pistas para entender do rapaz (Dinis Machado, ele mesmo, pura assunção deste leitor), põe-no naquele escritório cinzento a levar com o fumo dos cigarros de Mister DeLuxe, a deliberar sobre as razões que levam a certos actos, e os actos que levam a certas razões. No entanto, como nos ensina o mestre Welles no “Citzen Kane”, é impossível reduzir a vida humana a um qualquer quadro analítico ou, como Jorge Luís Borges citaria na sua crítica ao filme, “ninguém é alguém”. Borges que paradoxalmente (ou nem tanto) considerava “Citizen Kane” genial no pior sentido do termo. Se conhecesse o livro de Dinis Machado, jamais escreveria o mesmo.
“O que diz Molero” não partilha esse adjectivo, que Borges dizia germânico, com a obra-prima de Welles, é tão indissociavelmente lisboeta e bairrista que ninguém o tomaria por outra coisa. Mais do que a vida do rapaz, vai-se conhecendo as vidas por que passa, no seu bairro (o Bairro Alto de Dinis Machado?), os rufias mais velhos, os mais pequenos, que o rapaz segue, os pais ausentes a jogar bowling com garrafas de vinho, as mães cansadas, apaixonadas por boxeurs que se lembram da luta mais demorada de sempre, os maluquinhos, os donos das lojas, o polícia (nessa altura, seria chui, palavra que só resiste nas legendas em português dos filmes estrangeiros) e por aí dentro. Há histórias e mais histórias, do rapaz vai-se sabendo cada vez menos.
Sabe-se que teve uns amores por aí, nada de muito relevante, uns mentores suicidários, umas fugas para Paris, para longe do bairro pequenino mais do que qualquer ditadura, que tem um impulso criativo que não o leva a lado nenhum, a nenhuma grande obra, só a pequenos e passageiros rasgos de talento, a uma vida abortada. Num dos últimos capítulos do relatório, e do romance, Molero descreve por onde o rapaz passou e o que lá fez, são tantos os sítios, são tantas as coisas que se torna difícil acreditar na veracidade daquelas informações. Será que Molero anda encobrir qualquer coisa que o rapaz não fez, será que Molero é o rapaz, e porque é que nem Austin nem Mister Deluxe estranham nada disto?
O rapaz, Molero, Austin e Mister DeLuxe têm um nome e esse é Dinis Machado. O escritor começou como jornalista (não começaram todos os da sua época?), dirigiu a colecção Rififi - livros noir e policiais - onde publicou à descarada sob o pseudónimo Dennis McShade uns três romances cada um mais surreal no tom do que o outro, ensaios, talvez, do que viria a fazer com “O que diz Molero”. A sua escrita assemelha-se à de Fernando Assis Pacheco, também jornalista, também muito lisboeta, que muito aprecio - “As Memórias de um Craque”, um conjunto de crónicas para o jornal Record, são absolutamente imperdíveis. (Faz-nos falta essa literatura lisboeta.) Dinis, o rapaz, ia já tarde na vida quando mandou cá para fora “O que diz Molero”, êxito espectacular de vendas e de críticas. Sem ele provavelmente seria mal recordado, assim menos, mas não muito. Agora que José Rodrigues dos Santos é o maior escritor português, fala-se de menos de “O que diz Molero”, o seu sucesso é uma memória que se vai desvanecendo.