April 11, 2012
livros: “american tabloid”, de james ellroy

À altura da publicação de “Blood’s a Rover”, o último tomo da trilogia Underworld U.S.A. que este “American Tabloid” inicia, James Ellroy deu uma pequena palestra (chamo-lhe assim porque não foi propriamente uma apresentação do livro) na livraria Strand em Nova Iorque, a qual assisti. Não esperava encontrar o sujeito careca e envelhecido com um anacrónico laço ao pescoço e uma simpatia contrária àquilo que se diz dele (embora seja verdade que é um tanto seco). O que mais me impressionou, contudo, foi o quão pouco impressionante Ellroy é (ou melhor, que estar próximo de um dos meus escritores preferidos causasse tão fraca impressão; passados dois anos e tal, é uma memória difusa). Terá sido esse o ponto em que mesmo o Ellroy-escritor deixou de me interessar da mesma maneira? Anos antes, havia, à vez, devorado o “Black Dahlia” e lido febrilmente (numa madrugada) o “L.A. Confidential, doentios monumentos à violência desbragada. O problema é que todos os livros de Ellroy são “doentios monumentos à violência desbragada” e ou acabam por cansar por se ir reconhecendo a fórmula ou, provavelmente, porque uns são bem melhores do que outros. “White Jazz”, que fecha a tetralogia de L.A. e foi massacrado por Miguel Esteves Cardoso no Ípsilon (o que para este leitor influenciável pelas opiniões daqueles que admira provocou uma enorme queda na cotação de Ellroy), é claramente um dos piores. Surge este arrazoado para evitar argumentar convincentemente (pura preguiça) por que “American Tabloid” também não é dos melhores (apesar do fascínio mórbido que vira página após página, que se deverá sobretudo à reinterpretação dos factos históricos — teoria da conspiração — que levaram à Baía dos Porcos e ao assassinato de Kennedy) e para me vangloriar de ter visto James Ellroy em Nova Iorque.

March 30, 2012
livros: “memórias de um craque”, de fernando assis pacheco

“Memórias de um Craque” reúne textos com mais de trinta anos escritos por Fernando Assis Pacheco para a perecibilidade do papel de um jornal desportivo, o “Record”. Versam sobre a sua meninice, quando era o melhor jogador de todos os tempos da sua rua em vários desportos, incluindo a fisga ao pardal, e sonhava vestir os trajes negros da Briosa como os seus ídolos. Não esperaria o autor que houvesse um dia um livro a compilá-los (felizmente, a Assírio & Alvim fê-lo em 2005), dá ideia que os considerava menores e pouco merecedores de atenção (a série termina um tanto abruptamente, como se Assis Pacheco se tivesse fartado daquilo). Injustiça do próprio. É rara uma invocação da infância tão fremente, tão viva; dá vontade de participar naquelas jogatanas, sentir outra vez aquela felicidade absoluta de que só as crianças são capazes e poucos adultos conseguem lembrar, quanto mais descrever na perfeição. Houve um tempo, já longínquo, em que os melhores escritores portugueses escreviam nos jornais; embora seja bonito imaginar que esse papel que serve essencialmente para forrar o chão na altura das pinturas e para embrulhar os restos de comida para o lixo fosse reserva da melhor literatura, é triste que Assis Pacheco (assim como Dinis Machado e outros tantos) não tenha apostado mais nos livros e, portanto, na posteridade. Ficámos a perder.

March 21, 2012
livros: “the marriage plot”, de jeffrey eugenides

Logo que o vi estacionado na secção de livros estrangeiros da Fnac, tive de o levar. Uma vontade irreprimível, gerada naquele preciso instante (visto que até então nem sabia da sua existência). Atente-se que estava a comprar prendas (ou presentes, para certa casta) para outras pessoas, quando não resisti a trazer esta para mim (e já estava a braços com algum volume). A razão, ou melhor, as razões para a fossanguice encontram-se ali na capa: “Middlesex” e “The Virgin Suicides”, dois dos meus livros preferidos, mais o primeiro, os quais foram escritos por Jeffrey Eugenides, autor deste mesmo “The Marriage Plot”. A dita fossanguice prolongou-se à leitura das primeiras cento e tal páginas — histórias com pós-adolescentes (ou jovens adultos), ainda por cima passadas num campus universitário (livros com universidade por cenário, sejam de Nabokov, sejam de Marías, sejam de outro qualquer, cativam-me de uma maneira que nunca saberei explicar) é comigo. O pior, que ilumina algumas coisas más que já lá estavam, vem depois, quando se entra no “mundo real”: Eugenides não acredita particularmente nestas personagens (apesar de, segundo compreendi, o livro ser ligeiramente auto-biográfico), arquétipos sem alma (anda lá para lá uma versão do escritor David Foster Wallace, com headband mas sem o génio), nem no tipo de romance que está a escrever — ao mesmo uma crítica e um émulo da obras das autoras vitorianas, nomeadamente Jane Austen. Não sou propriamente versado na literatura inglesa do séc. XIX, mas “Emma” de Austen, por exemplo, dá dez-a-zero a esta tentativa falhada de actualizá-la, com psicoses, neuroses, liberdade sexual e peregrinações místicas (e o — alerta de desmancha-prazeres — apropriado final infeliz). Claro que a inglesa também trabalhava com arquétipos e enredos previsíveis, mas usava de um humor refinado e tinha um cuidado na linguagem que Eugenides exibia no hipnagógico “The Virgin Suicides” e até no mastodôntico “Middlesex” e parece ter perdido algures, substituindo-o por irritantes lugares comuns e algumas imagens de mau gosto. Atenção: “The Marriage Plot” não é um mau livro — como se costuma dizer, Eugenides não sabe escrever mal (esta pequena diatribe deriva sobretudo da decepção do fã) —, fica é muito aquém dos outros dois, óptimos, romances de autor. 

March 7, 2012
livros: “quando o diabo reza”, de mário de carvalho

Em “Quando o Diabo Reza”, seu último romance, Mário de Carvalho faz a sua crónica dos bons malandros: ladrõezecos e putéfias às voltas com um plano rebuscado de roubar um velhote meio senil, muito rico e de maus fígados. Se estas não são as personagens típicas de Mário de Carvalho — costumam ser de pequena, média ou alta burguesia —, elas não tardam a aparecer. Lá estão elas, as duas irmãs, filhas do velho: uma boazinha e tonta, a sonhar com Cubas e homens de bigodinho; outra ansiosa e obcecada pela fortuna que há-de vir e não vem (nem o pai morre, nem a gente almoça), a fazer a cabeça ao marido. O romance divide-se entre estas duas faces da trama: de um lado, os gatunos, com os seus esquemas, lábia, telenovelas, igrejas universais, a Lisboa mais bairrista e, ao fim ao cabo, mais animada; do outro, as ânsias e esperanças dos novos ricos, a primeira e segunda geração de ascensão social, a avareza, a cobiça, a Lisboa respeitável das Avenidas Novas e afins, muito senhora de si e atenta ao bem parecer. Parecerá redutor: os pobrezinhos felizes e os ricos infelizes. Porventura, sou eu que leio assim. No final, ninguém sai vitorioso, ninguém fica com o que quer, todas as esperanças são frustradas. A tristeza (uma profunda angústia do portugalzinho que é tão nosso) instala-se, semelhante a outros romances do autor, só que para uns é muito muito azeda quando para outros é mais amargo de boca. Será a maneira de Mário de Carvalho, ao sair da sua editora de anos, a Caminho, reafirmar o seu marxismo? Não, que isto, quando muito, é uma pequena vitória (ou uma derrota tolerável) do lumpen-proletariado. 

February 29, 2012
livros: “os anos de ouro da pulp fiction portuguesa”, vários autores

A pulp fiction portuguesa nunca existiu. A pulp fiction portuguesa nunca existiu assim. Esta compilação de contos (fac-similiados) dos vários autores que ergueram, continuaram e assistiram à morte do género em Portugal é um logro completo. Estas pessoas — os escritores malditos, expatriados, e aristocráticos; os editores ambiciosos e pouco escrupulosos — e as histórias à volta deles são pura obra de ficção. Esse será o trabalho mais espantoso que se encontra neste livro que afinal colecciona contos bem recentes (descobertos num concurso) que emulam a escrita fantasiosa e/ou violenta, de consumo rápido e descartável, famosa antes do advento da televisão. Luís Filipe Silva, o homem por trás de “Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa”, engendra pequenas biografias dos autores fictícios, erigindo um universo (paralelo) tão fantástico, excitante, sensacionalista e cheio de volte-faces quanto a própria pulp fiction. Ou seja, acaba por ser mais uma história entre as outras: as policiais, as de espionagem, as de ficção-científica, as de terror, as aventuras, os westerns (a diversidade está garantida, há contos para todos os gostos). Uma história que incorpora as outras, contaminando-as: as notas, as gravuras, os cortes da Censura. Escreva-se também que a qualidade média de “Os Anos de Ouro…” é bastante razoável; como em qualquer colectânea, há coisas melhores do que outras, mas nenhum conto se destaca pela negativa. E, por outro lado, há os que se destacam pela positiva: o complexo “Mais do Mesmo!”; o terrífico “Noites Brancas”; o clássico “Valente”; o límpido “Pirata por Um Dia”. De uma ideia brilhante surge um belo entretenimento. 

February 14, 2012
livros: “o retorno”, de dulce maria cardoso

Para um povo que se orgulha tanto do seu passado, os portugueses não gostam muito de se lembrar da sua história recente, principalmente aquela que começa a 25 de abril de 1974: se a Guerra Colonial foi tema de alguns livros e filmes, o período que se seguiu à revolução, rico em conflitos e matéria narrativa, é pouco abordado. O PREC, o Verão Quente, a descolonização, apesar de terem passado quase quarenta anos, ainda deixam muitas feridas a sangrar, mesmo nos que não estiveram directamente implicados (A guerra já não levanta o mesmo tipo de polémicas). É como se a democracia preferisse não ter memória das suas origens. O sucesso de “O Retorno”, de Dulce Maria Cardoso, começa, porventura, na capacidade de pegar o boi pelos cornos, fugindo ao benevolente discurso político oficial. A descolonização não foi um processo fácil nem perfeito: as guerras civis nas ex-colónias e os regimes ditatoriais que prevalecem actualmente são em parte resultado dela; na altura, um milhão de portugueses (alguns nunca tinham posto cá os pés) foram forçados pelas circunstâncias a retornarem à “metrópole”, deixando para trás a casa, os pertences, o dinheiro, a vida. Vistos com desconfiança e receio pelo resto da população, a inserção dos retornados no tecido social do pequeno país que restava causou óbvios atritos. Dulce Maria Cardoso, ela mesma retornada, não se furta a essa dor, expondo-a através de uma escrita dura e ao osso, próxima de certa literatura anglo-saxónica (as frases curtas), mas, mais do que isso, um caso exemplar da forma a adaptar-se ao e a deixar-se influenciar pelo conteúdo. O livro não é propriamente negro, ri-se com o absurdo da situação (os retornados foram postos a viver em hotéis de cinco estrelas; as personagens de “O Retorno” bem ao pé do mar, no Estoril), a banalidade de um quotidiano em pantanas (o hotel como micro-cosmos social muito bem definido), os devaneios e aventuras do jovem protagonista, mas resiste nele uma mágoa que não se apaga, mesmo quando se dão pequenos milagres.

November 21, 2011
livros: o meu amigo john doe

Desta é de vez: durante uns tempos não farei mais promoção nem a mim nem a pessoas que me são próximas. Mas, para acabar em beleza, anuncio a publicação do livro de contos do meu pai “O Meu Amigo John Doe” que, apesar de já estar à venda em versão papel e em versão digital, terá um lançamento a sério e em grande no Botequim do Largo da Graça, no próximo sábado, dia 26 de novembro, pelas 16h00. O autor estará presente e haverá um pequeno concerto acústico dos Alucina — em princípio, só o Fábio a tocar umas quatro canções. Aviso também que, se até lá não se arranjar mais ninguém, irei ler um trecho da obra, o que não pode ser coisa boa (eu ler, não a obra). 

Quem quiser ler umas coisinhas do autor, pode visitar um dos seus dois blogs: O Meu Amigo John Doe e O Irmão do Meio.

Os Alucina, que conhecerão, já que escrevi cerca de trinta vezes sobre eles nos últimos tempos, têm página de Facebook e MySpace, no entanto para perceber como resultam no formato acústico é melhor ver este vídeo (a partir dos 5:15).

A fotografia da capa do livro é da Mafalda e faz parte desta série.

November 14, 2011
livros: memórias de um caçador de vampiros

Outra promessa cumprida com ligeiro atraso. Tenho gasto algum deste espaço a referir e a elogiar o que conhecidos meus fazem (quando não estou, simplesmente, a auto-promover-me), não tenho culpa de ter amigos criativos e que criam, portanto, coisas. Se calhar, não é de bom tom (especialmente a auto-promoção), mas infrinjo essa regra de bom grado. Desta vez, o alvo é o livro do (Bern)Ardo Antas, “Memórias de Um Caçador de Vampiros” (já nas livrarias). Provavelmente, não o leria se não fosse de um amigo meu. Leio pouco (não leio assim tão pouco, para mais em comparação com a média portuguesa de que se ouve falar; leio bem menos do que gostaria) e reservo os meus olhos a obras de valor assegurado: os canónicos, os prezados por quem prezo, os sobre cinema ou música, e os vampiros do Maigret. Quando escrevo “vampiros”, leia-se “aqueles livrinhos pretos com histórias policiais” e não “sugadores de sangue que não podem ver a luz do sol”, de que trata exactamente o livro do Ardo. Ora, que me lembre, nunca li sobre esses vampiros antes, nem o Bram Stoker nem a Anne Rice (acho que ainda tentei, felizmente sem sucesso). Agora já posso dizer que li. “Memórias de Um Caçador de Vampiros” é um livro de aventuras, daqueles sobre os quais escrevia Rogério Casanova no Ípsilon de há uma semana, daqueles gulosos que servem para enriquecer a dieta rigorosa de “grandes livros”, daqueles que relembram o prazer primordial de ler, que encontram a criança maravilhada que está dentro de nós (salvo seja). Nesse tal texto, Casanova debruçava-se sobre “Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa”, pelos vistos um logro (e quem não gosta de um bom logro literário? este senhor), tal como como “Memórias…” o poderia ser, no sentido de parecer a tradução portuguesa de um autor americano esquecido pelo “bom gosto”, no sentido de lembrar as traduções para português desse misterioso Dennis McShade. A acção, conduzida pelo protagonista e narrador Rick Chambers, o dito caçador, passa-se todinha em terras americanas e explora os seus ícones (as terriolas pequenas, os pregadores, as motas e os casacos de cabedal, o herói duro e monossilábico), assim como mitologias cinematográficas não menos yankees, no caso “Vampires” de John Carpenter. A preocupação principal do autor, como o próprio confessa (afirma, que não se está a falar de crimes), é entreter o leitor, nunca o aborrecendo. Assim, o maior elogio que se lhe pode fazer é escrever que o objectivo foi plenamente atingido. O objectivo foi plenamente atingido.

Ardo Antas tem um blog, em que se pode ler o prólogo de “Memórias de Um Caçador de Vampiros”.

*a ver se arranjo uma imagem maiorzita da capa

November 9, 2011
livros: um deus passeando pela brisa da tarde

Já escrevi para aqui que Mário de Carvalho é o maior escritor português vivo, afirmação que, pondo de parte Agustina Bessa-Luís (que infelizmente deixou de, ou já não pode, escrever), única rival a esse título, não deve andar longe da verdade. “Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde”, de 1994, é um romance histórico, um género algo maltratado, à vez, por críticos e escritores, mas que aqui é subvertido pela mundanidade e coloquialidade (imagens de marca do escritor) poucos habituais neste tipo de livros, para mais quando se trata dos tempos do Império Romano, sempre submetidos a alguma pompa, qualquer a circunstância, e, principalmente, pelo português límpido e lindíssimo de Carvalho (poucos escrevem tão bem, menos ainda no romance histórico, em que as energias se gastam quase todas na narrativa e na força dela). A trama, política, de traições, enganos, casmurrices e complacências, é aguda, no entanto as brincadeiras com anacronismos, ou melhor, com o saber do homem futuro gastam-se e cansam depressa. Prefiro o Mário de Carvalho que disseca o Portugal de hoje e que apanha tão bem os mais ínfimos gestos e os mais refinados pensamentos, como se pintasse à nossa frente a própria realidade (não se pense no malfadado realismo, antes num reconhecimento que vai muito para além do retrato fidedigno), o Mário de Carvalho de “Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto” e de “Fantasia para dois coronéis e uma piscina”. Contundo, apesar do que fica atrás escrito, o prazer da leitura, do saborear de cada palavra, primorosamente colocada na frase perfeitamente burilada, de cada novo e inspirado insight (não tenho um vocabulário tão bom como Carvalho, está visto), é o mesmo. Para mim, basta.

Devo voltar a Carvalho em breve, ultimamente tenho-me deliciado com os contos de “O Homem do Turbante Verde”, especialmente aquele do homem que não consegue sair da cidade do Porto. 

October 18, 2011
livros: deixem falar as pedras

Saiu aqui há uns meses no Ípsilon um artigo sobre os novos escritores portugueses, que, escrevia-se, voltavam a ter gosto por contar histórias. David Machado era um dos nomes citados e o seu livro “Deixem Falar as Pedras” alvo de uma crítica lisonjeira de João Bonifácio. Apesar do meu desconhecimento da literatura portuguesa mais recente, ou por causa dele, os ditos artigo e crítica despertaram-me o interesse, pelo que comprei e li o romance. O aspecto mais evidente de “Deixem Falar as Pedras” é a estrutura inteligente, que serve na perfeição o próprio tema do livro: a memória partilhada e, talvez, deturpada. O narrador é um miúdo que reconta as histórias meio fantasiosas que o avô, agora já sem memória, lhe foi contando; o leitor está, portanto, perante uma memória em segunda mão. Apesar de tudo, David Machado nunca desfaz a dúvida que estabelece desde início, o mais certo é haver uma parte de verdade e outra de efabulação. De alguma maneira, o território é similar a “Big Fish”, de Tim Burton (não li o livro em que é baseado): acreditar também é um acto de amor e a desconfiança uma manifestação de cinismo. O narrador, o miúdo, acredita e, enquanto está a braços com outros problemas (e para os esquecer, também), planeia a vingança às atrocidades que o seu avô sofreu (como Bonifácio escreve na sua crítica, “Deixem Falar as Pedra” é uma viagem às memórias, mais ou menos fiáveis, do passado recente português: tanto na ditadura como nos tempos conturbados que se lhe seguiram). Mas, porventura, é na voz do miúdo, muito justa, que David Machado ganha o livro. “Deixem Falar as Pedras” é, pelo menos, bastante agradável e o seu autor (que também tem um blog) muito promissor. 

October 4, 2011
livros: bufo & spallanzani

Acordo ortográfico para aqui, acordo ortográfico para lá, aborrece-me mais a conversa da subserviência ao Brasil do que o acordo propriamente dito; de uma população que, vê-se nas redes sociais, conhece tão mal o acordo antigo ou, pelo menos, o desrespeita sem perdão, custa sentir esse patriotismo bacoco. Para mais, quando a literatura brasileira é tão boa e tão desconhecida no nosso país (o contrário também parece ser verdade). Em boa hora, a Sextante editou “Bufo & Spallanzani”, com a ortografia portuguesa, de modo que não há desculpas para não descobrir um dos maiores escritores da língua portuguesa, Rubem Fonseca (que até já venceu o prémio Camões, em 2003). Desde que li “A Grande Arte” que Fonseca vai-se tornando um dos meus autores preferidos. Alguns acusam-no de deleitar-se nas baixezas da vida (e de escrever maus diálogos), o que é uma crítica muito ao lado, Fonseca nunca procura o realismo, quando muito, um hiper-realismo que brinca com as suas convenções, e se é brutal, é-o como James Ellroy, atraído pela violência extrema, de uma maneira quase prazerosa. No resto, especialmente neste “Bufo & Spallanzani”, tudo é comandado pelo prazer: a princípio um romance policial escorreito com protagonistas trocados, depressa faz uma guinada para o passado do narrador (o protagonista de facto), saborosamente incongruente, como de repente passa a reflexão sobre a criação artística, para, no final, explodir em sangue e violência. Não é um romance fluido, nem precisa de ser, estará provavelmente próximo de certa literatura americana (e nem tanto pelo tom policial), dispara para todos os lados, mas a cada tiro acerta melhor no leitor. 

(A personagem Mandrake, recorrente nos romances de Rubem Fonseca, deu origem a uma série de televisão com o mesmo nome, que até passou por cá mas que nunca vi.)

(Não escrevo com o novo acordo ortográfico, porque sou preguiçoso e estou habituado ao antigo; não sou linguista, mas acredito que o acordo não seja o melhor; no entanto, o que me irrita é o discurso primário e nacionalista.)

September 30, 2011
política de escritores

Em plenos anos 70, quando a “política de autores”, importada de França e propagada por Andrew Sarris, já se fixara como nos Estados Unidos como a teoria dominante (ainda o é, um por pouco por todo o lado), o crítico Richard Corliss publicou “Talking Pictures”, em que defende que o trabalho do argumentista é tão ou mais importante do que o realizador. Embora no prefácio, o próprio Sarris refute as acusações de que a “política de autores”, apesar de tornar visível certos traços e marcas de realizadores, alguns deles subvalorizados, desprezou o trabalho de todos os outros intervenientes na produção de um filme, Corliss demonstra que muitas marcas ditas autorais podem ser atribuídas aos escritores, tanto mais quando, na época dos grandes estúdios, até os movimentos de câmara (para não falar de vários apontamentos visuais) vinham descritos nos argumentos, bastando ao realizador segui-los. Há uns posts atrás, eu escrevia que “Only Angels Have Wings”, “To Have and Have Not” e “Rio Bravo”, todos de Howard Hawks, eram muito parecidos, quase como remakes uns dos outros, pelo menos, nas histórias de amor. Só ao ler “Talking Pictures”, percebi porquê: tiveram todos o dedo de Jules Furthman. Richard Corliss organiza uma pequena enciclopédia dos melhores argumentistas até essa data, em que, através de uma análise inteligente, destaca as suas personalidades artísticas, observando a “autoria” que cada um trazia para os filmes que escrevia (que, se não valer por mais nada, é um belo apanhado destes artesãos). A “política de autores” teve uma importância óbvia: retirou o cinema americano do domínio da indústria, dando-lhe a respeitabilidade da arte, mais, dando-lhe artistas, maiores do que os restantes. Onde falha é na crença romântica de que uma obra, para ser válida artisticamente, só pode ter um autor, tem de ser uma criação pessoal e intransmissível, esquecendo séculos de pintura, por exemplo. Na verdade, colhe muito bem no crítico (ou em qualquer espectador), porque facilita a sua tarefa, é menos difícil catalogar a obra de uma pessoa do que a de cento e tal. E, porventura, os argumentistas nem são os mais injustiçados; o que dizer do trabalho mais invisível do montador e do director de fotografia?

September 28, 2011
banda-desenhada: fun home

Os enganos começam com o título desta novela gráfica: fun home era a casa mortuária que dava de comer à família Bechdel, mas também podia ser o casarão que Bruce restaurou com carinho desmesurado, uma casa-de-bonecas quase intocável (e não menos estagnada no tempo, na vida). Longe da banda-desenhada de super-heróis, “Fun Home”, de Alison Bechdel, estabelece-se numa corrente, que se diria, alternativa (com todas as conotações que a palavra tem). É um retrato do pai da autora, um homossexual não assumido, obsessivo-compulsivo, distante, refinado e culto à viva força, casado com uma mulher triste, professor, residente numa pequena cidade americana, que mantinha relações com alguns alunos menores e morre num acidente estúpido (terá sido suicídio?), desvendado aos poucos, por capítulos que abrem para uma nova vertente da sua personalidade, como num romance policial em que o mistério fosse a alma de uma pessoa. Alison Bechdel desvenda-se também a si mesma: também ela homossexual, dispõe-se a nunca cometer os mesmos erros do pai; esta obra talvez faça parte dessa tentativa. “Fun Home” é uma auto-biografia a dois, sendo que um já está morto, mas a sua presença sente-se ainda na delicadeza do traço, no tom esverdeado das cores, no corpo da filha. “Fun Home é um belo livro, independentemente da forma.

May 16, 2011
livros: “o ano da morte de ricardo reis” de josé saramago

À altura da entrega do Nobel da Literatura de 1998, andava a ler “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, achava-o um pouco lúgubre, talvez, e a leitura pesava-me. Já tinha lido outros romances do escritor — “Todos os Nomes” (o meu preferido), “Ensaio sobre a Cegueira”, “Evangelho Segundo Jesus Cristo” — e tinha gostado, pode dizer-se, muito. Nunca percebi os que acusavam Saramago de complexidade; a sua escrita, apesar da singular pontuação, é límpida, fácil (de compreender; facilitista, não o era, pelo menos).

Depois da atribuição desse Nobel da Literatura, nunca mais pus os olhos num livro de Saramago e, por conseguinte, não acabei “O Ano da Morte…”. Parvoíces do jovem que era e não queria parecer os outros passageiros do comboio que pegavam pela primeira vez numa obra do escritor (desde aí, passei a ter a ideia de que Saramago é o autor que toda a gente tem na estante e não lê). Para mais, as minhas preferências literárias tinham-se desviado para José Cardoso Pires (“Alexandra Alpha” ainda é dos meus livros preferidos), que morreria nesse ano, sem hipóteses de ganhar o Nobel de que era, provavelmente, mais merecedor. 

Foi preciso Saramago morrer, doze anos depois, para voltar a pegar num livro seu e acabar “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. (Uma ou outra referência ao romance num livro de James Wood, crítico literário que o considera uma obra maior, também ajudaram, passe o snobismo.) E qual não foi a minha surpresa, depois de tantos anos a ouvir dizer que Saramago era um escritor menor, a irritar-me com as suas opiniões, ao descobrir o imenso prazer da escrita, o amor pelas palavras, quase filológico, as digressões, as brincadeiras, o cinema (há no livro, uma pequena desmontagem da realidade, com actores, realizadores e técnicos). O lugubridade está lá, a lugubridade do Regime Fascista e, pior, do ser português, no entanto, não encontrei a sisudez e a doutrina de que estava à espera, ao invés, um óptimo parceiro de Mário de Carvalho (o maior escritor português no activo?), com o qual fica a perder, mas por bem menos do que se pensaria. O que é dizer bastante. 

October 29, 2010
Dinis Machado “O que diz Molero”

Um Kane à lisboeta 

O optimista Austin e o cínico Mister DeLuxe, da frieza de um escritório futurista onde ainda se pode fumar (e fuma-se copiosamente), analisam o relatório da vida do rapaz - como é sempre referido a figura central do romance - escrito por um tal de Molero, agente encarregue das investigações à vida de pessoas e de completar os posteriores relatórios. Nunca se descobre para que organização trabalha toda esta gente, a princípio presume-se que o rapaz terá morrido e que este mundo burocrático é o Céu como retratado nalguns filmes mais ácidos dos anos 30 e 40. A dúvida resiste até ao fim, e as certeza que se alcançam ao ler a última página são muito frágeis. 

Mas pouco interessam estas questões, Dinis Machado coloca o leitor à procura de pistas para entender do rapaz (Dinis Machado, ele mesmo, pura assunção deste leitor), põe-no naquele escritório cinzento a levar com o fumo dos cigarros de Mister DeLuxe, a deliberar sobre as razões que levam a certos actos, e os actos que levam a certas razões. No entanto, como nos ensina o mestre Welles no “Citzen Kane”, é impossível reduzir a vida humana a um qualquer quadro analítico ou, como Jorge Luís Borges citaria na sua crítica ao filme, “ninguém é alguém”. Borges que paradoxalmente (ou nem tanto) considerava “Citizen Kane” genial no pior sentido do termo. Se conhecesse o livro de Dinis Machado, jamais escreveria o mesmo.

“O que diz Molero” não partilha esse adjectivo, que Borges dizia germânico, com a obra-prima de Welles, é tão indissociavelmente lisboeta e bairrista que ninguém o tomaria por outra coisa. Mais do que a vida do rapaz, vai-se conhecendo as vidas por que passa, no seu bairro (o Bairro Alto de Dinis Machado?), os rufias mais velhos, os mais pequenos, que o rapaz segue, os pais ausentes a jogar bowling com garrafas de vinho, as mães cansadas, apaixonadas por boxeurs que se lembram da luta mais demorada de sempre, os maluquinhos, os donos das lojas, o polícia (nessa altura, seria chui, palavra que só resiste nas legendas em português dos filmes estrangeiros) e por aí dentro. Há histórias e mais histórias, do rapaz vai-se sabendo cada vez menos. 

Sabe-se que teve uns amores por aí, nada de muito relevante, uns mentores suicidários, umas fugas para Paris, para longe do bairro pequenino mais do que qualquer ditadura, que tem um impulso criativo que não o leva a lado nenhum, a nenhuma grande obra, só a pequenos e passageiros rasgos de talento, a uma vida abortada. Num dos últimos capítulos do relatório, e do romance, Molero descreve por onde o rapaz passou e o que lá fez, são tantos os sítios, são tantas as coisas que se torna difícil acreditar na veracidade daquelas informações. Será que Molero anda encobrir qualquer coisa que o rapaz não fez, será que Molero é o rapaz, e porque é que nem Austin nem Mister Deluxe estranham nada disto?

O rapaz, Molero, Austin e Mister DeLuxe têm um nome e esse é Dinis Machado. O escritor começou como jornalista (não começaram todos os da sua época?), dirigiu a colecção Rififi - livros noir e policiais - onde publicou à descarada sob o pseudónimo Dennis McShade uns três romances cada um mais surreal no tom do que o outro, ensaios, talvez, do que viria a fazer com “O que diz Molero”. A sua escrita assemelha-se à de Fernando Assis Pacheco, também jornalista, também muito lisboeta, que muito aprecio - “As Memórias de um Craque”, um conjunto de crónicas para o jornal Record, são absolutamente imperdíveis. (Faz-nos falta essa literatura lisboeta.) Dinis, o rapaz, ia já tarde na vida quando mandou cá para fora “O que diz Molero”, êxito espectacular de vendas e de críticas. Sem ele provavelmente seria mal recordado, assim menos, mas não muito. Agora que José Rodrigues dos Santos é o maior escritor português, fala-se de menos de “O que diz Molero”, o seu sucesso é uma memória que se vai desvanecendo. 

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